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Sempre há uma razão de ser

  • Foto do escritor: Capitulos De Superação - IFC
    Capitulos De Superação - IFC
  • 19 de jun. de 2024
  • 4 min de leitura

Atualizado: 19 de ago. de 2024


Ilustração de: Flávia Lima dos Santos


O dia, não me recordo; o mês foi junho de 2015. Após um relacionamento de quase 20

anos e com dois filhos prestes a conquistar a maioridade, eu e meu companheiro decidimos

que não teríamos mais filhos. De acordo com a nossa percepção, um casal de filhos estava

perfeito. Assim, no mês supracitado, ele resolveu fazer vasectomia. Tudo saiu como o

planejado, o procedimento foi simples.


Eu, que havia sido mãe adolescente (história que contarei num próximo capítulo),

tinha muito medo de engravidar, razão pela qual não parei com o anticoncepcional antes de

seis meses após o procedimento. Ainda em novembro de 2015, procurei ajuda médica, pois o ciclo menstrual estava desregulado (sem vir). Após os exames, a conclusão foi a de que a

disfunção resultava de alterações no sistema nervoso, devido a altos índices de estresse, e a

recomendação foi que, se o problema persistisse, deveria retornar ao consultório para realizar exames mais detalhados.

Pois bem, a partir de março de 2016, os mesmos sintomas se apresentaram, porém,

dado os resultados dos exames anteriores, não me preocupei em agendar uma consulta

imediatamente. Como o problema persistiu até meados de maio, resolvi retornar ao

consultório, pois estava desconfiada de que havia algum distúrbio hormonal. Também

observei que vinha aumentando o peso. Ao chegar ao consultório, a doutora recomendou

novos exames.

Enquanto aguardava a organização dos equipamentos, para descontrair, fiz alguns

comentários do tipo:


— Doutora, meu companheiro já está ciente de que pai é quem cria.


Comentários pronunciados de modo muito seguro, tendo certeza de que não havia

possibilidades de estar grávida, dado que situação semelhante ocorrera no ano anterior e pelo fato do estar vasectominizado.


Realizados os comentários iniciais, partimos para o exame. Num primeiro momento, a

doutora disse:

— “Guria”, tem um bebezão ai!


— Sim, doutora. Só falta você me dizer que são dois — eu retruquei.


— E são — foi a resposta dela.


Caí na gargalhada, e respondi, achando que seus comentários não passavam de uma

brincadeira:

— Doutora, teu senso de humor é melhor que o meu...

Nisso, ela me disse:

— “Guria”, olha isso!

Quando olhei para a tela, lá estavam dois bebês. Não sei exatamente como descrever

o que se passou depois. Recordo-me de que eu ria; não posso afirmar se era alegria ou de

desespero. Acho que as duas coisas. Ao término do exame, foi constatado que eu estava

grávida de três meses e meio, e mais: eram gêmeos bivitelinos! Ou seja, não bastava

engravidar após a vasectomia; eu havia engravidado com dois óvulos fertilizados por dois

espermatozoides. Isso não pode ser mero acaso, não é?

Saí do consultório gritando aos quatro ventos que estava grávida de gêmeos, mas

ninguém acreditava. Uma única pessoa me disse:

— Amanhã, levarei um presente para essas crianças. Espero que você esteja realmente

grávida.

Após convencer as pessoas que a gravidez era real, passamos para a etapa seguinte, a

qual consistiu na pesquisa realizada pelo excelentíssimo pai das crianças sobre qual era a

probabilidade de se engravidar alguém após a vasectomia. Tal etapa que foi composta por

muitas piadas vindas dos amigos, e pela citação da famosa frase: “Pai é quem cria”. Embora eu acredite que, para meu companheiro, essa não tenha sido uma fase muito simples, ele foi perseverante até o momento do veredito final: o resultado de seu espermograma. Nele, foi constatado que o procedimento tinha dado errado e os canais, que haviam sido interrompidos, haviam se regenerado e estavam ativos.

Esclarecidos estes aspectos, passamos para a próxima etapa: a gravidez em si.

Ignorando o fato de que não havia nenhum vestígio de roupas para bebês na nossa casa, haja vista que os outros filhos já eram adultos, tudo estava ocorrendo tranquilamente. Amigos, família, todos curtindo e ansiosos para o nascimento dos “gêmeos”. Havia muitas discussões e dúvidas sobre os nomes. Chegou o dia do chá de bebê, e ainda não tínhamos decidido.

Passado o chá de bebê, novas surpresas: dia vinte e dois de outubro, com trinta e duas

semanas de gravidez, sem ter concluído o enxoval, os gêmeos nasceram. Isso trouxe novos

desafios: por serem prematuros, os bebês foram encaminhados para a Unidade de Terapia

Intensiva (UTI), onde permaneceram por vinte e quatro dias. Dias difíceis, de muitas angústias, pois os dias numa UTI transcorrem alternando momentos de alegria, quando uma família consegue levar seu ente querido para casa com vida, com outros de muito desespero, ocasiões em que famílias precisam encarar a perda dos seus. Assim, ao ouvir a campainha do alojamento das mães que tinham os filhos na UTI tocar, todas tinham sobressaltos, pois nunca sabiam o que estava por vir.

Estes foram vinte quatro dias da minha vida em que aprendi muito. Aprendi que a vida

é um sopro e, embora o dinheiro seja importante, nestes momentos, ele não vale muito.

Estamos todos no mesmo barco. Vida e morte andam juntas; só um fio os separa. Aprendi

também que é preciso acreditar, ter fé, não importa qual for sua crença. Pode ser na religião,

na ciência ou seja lá no que for; quando você foca a mente positivamente, coisas boas

acontecem. Nada é para sempre, nem os momentos ruins, pois eles também passam. E assim foi.

Passados os momentos de angústia, tudo se iluminou. Os meninos receberam alta, e

voltamos para casa, onde tudo ainda estava inacabado. Não havia berço, nem quarto

decorado, mas o mais importante não faltava: o amor da família reunida e a saúde de todos

reestabelecida.

Caso você se depare com uma gravidez não planejada, ou com momentos difíceis, não

se desespere. Na vida, nada é por acaso. O que acontece nem sempre é o que queremos, mas com certeza é exatamente o que precisamos. Seja para nossa evolução enquanto seres

humanos, seja para reordenar certos percursos da nossa vida. Se por acaso você estiver

vivendo um momento ruim, apenas diga “sim, eu me rendo ao que você veio me ensinar”.

Assim que você aceitar que essa adversidade tem um propósito em sua vida, ela pode ir

embora e dar um novo sentido a sua vida.







Ilustrador: Pedro Hoffmann Hupalo













Autora: Lizete Camara Hubler



(Publicado em 19 de junho de 2024)

 
 
 

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